Projeto Ciranda do Brasil

segunda-feira, maio 15, 2006

Ciranda no Norte – Parte 1

Todos os estados que visitamos foram especiais. Com suas características peculiares e marcantes, nos apresentaram o que é o Brasil, de fato. Um país de proporções continentais, composto por diferentes formações étnicas, distribuídas por todo território nacional. Tivemos contato com boa parte deste verdadeiro caldeirão que é a sociedade brasileira, seja com o Brasil Afro-brasileiro – extremamente marcante na Bahia, mas também com muita riqueza em estados como Minas Gerais –, com o Brasil Sertanejo – que marca a gente dos sertões nordestinos, como é o caso do Vaqueiro no Ceará – e, agora, com o Brasil Caboclo, na região Norte do país.

Nossa chegada ao Norte teve como tempero muita ansiedade. Ainda mais depois de toda a maravilhosa experiência que foi nossa passagem pelo Nordeste: mesmo contando com alguns conhecimentos sobre a região, aprendemos muito, nos surpreendemos com a riqueza história e cultural e com a amabilidade do povo. A região Norte, por sua vez, representava para nós algo totalmente novo. Uma região muito distante do nosso Sudeste seja pelos aspectos climáticos, ecológicos, étnicos, históricos e que, portanto, nos atraía demasiadamente.

Nossa entrada no Norte foi pela cidade de Belém, capital do estado do Pará. A passagem pela cidade foi rápida. Caminhamos pela região central, onde pudemos conhecer um pouco da bela arquitetura local, resultado principalmente dos ciclos da borracha que trouxeram grande prosperidade para toda a região no século XIX. Um dos pontos turísticos mais interessantes e típicos consiste no Mercado Municipal da cidade, conhecido como “Ver o Peso”. Lá, encontra-se uma enorme variedade de óleos, extratos e essências de plantas amazônicas, além de diversas frutas e sementes. Tudo compondo um colorido incrível que se soma à toda a simpatia dos vendedores.

De Belém, pegamos um barco com destino à Ilha de Marajó. Após 3 horas de viagem, uns bons 40 minutos de van e uma balsa, nós chegamos ao Município de Soure, principal da ilha. Hospedamos-nos na pousada de um alemão, extremamente simpático e falante, que vive na ilha há alguns anos, com esposa e filhas marajoaras.

 

A Ilha de Marajó, esse local remoto e pouco conhecido pela maioria dos brasileiros, é um lugar marcante por sua beleza natural. Famosa por suas criações de búfalos, é comum ver alguns desses enormes, porém, dóceis animais circulando livres e tranqüilamente no meio das ruas da cidade. A visita a uma fazenda de criação com mais de mil cabeças de búfalos foi, inclusive, uma das atividades mais interessantes que fizemos na ilha. Os contatos com a exuberante natureza e a variedade de pássaros enriqueceram a já marcante presença dos búfalos, além de toda a receptividade com que fomos recebidos por Eva, dona da fazenda.

 

Apesar de um lugar lindo e extremamente interessante, a Ilha do Marajó conta com alguns problemas que acompanham a vida cotidiana das pessoas que lá residem. Pudemos perceber, pelo menos a partir do que vimos em Soure, que existe significativa carência no que diz respeito à infra-estrutura. É o caso, por exemplo, do abastecimento de água, rede de saneamento básico e abastecimento de energia. Existem também deficiências no campo profissional, relativas a oportunidades de empregos. Esses não são problemas exclusivos da Ilha do Marajó, sendo, inclusive, comuns em outros muitos municípios de diversas regiões do país.

 

De volta a Belém, teríamos pela frente um grande trecho a percorrer: o trajeto entre a capital do Pará e Santarém, importante cidade situada no oeste do mesmo estado. Optamos por fazer essa viagem por barco, por alguns motivos. O principal deles correspondia ao interesse por vivenciar uma experiência como esta.

 

A viagem tem como duração 3 dias e meio, alternando trechos mais largos e mais estreitos de rio. Estes mais estreitos proporcionavam um contato mais próximo com a vegetação amazônica que margeia, assim como com as populações ribeirinhas que habitam toda a região. Vivendo em casas de palafitas, extremamente simples e humildes, essas populações têm como costume pedir alimentos e roupas para os passageiros dos barcos que fazem esses trechos. Eles utilizam suas canoas artesanais para se aproximar dos barcos e, muitas vezes, conseguem alguma ajuda. Outros, mais ousados, conseguem ancorar suas canoas nos barcos, aproximação feita com ambos em movimento – e, por sinal, bastante arriscada – com o objetivo de poder vender refrigerante, biscoitos, lanches, frutas para os passageiros e, conseqüentemente, conseguir algum dinheiro.

 

 

 

Dentro do barco a experiência é igualmente única. Existem diferentes classes ou categorias de passagem, divididas nos três andares do navio. No primeiro nível, os passageiros se acomodam em redes; no segundo nível, mais um espaço para redes, porém este com ar condicionado, mais algumas cabines com beliche para duas pessoas; no último nível, mais quartos, entretanto, com camas de casal. Há algumas áreas de convívio comuns, que representam um dos grandes atrativos da viagem por barco. São, até mesmo, motivo para que muitos decidam viajar pelo rio, ainda que seja mais demorado, no lugar de fazer o mesmo trecho por avião. O barco é um espaço onde todos se misturam e interagem, trocando experiências e histórias de vida. Nessa viagem, conhecemos muitas pessoas interessantes e peculiares, vindos de diversas regiões do país.

 

 

terça-feira, abril 18, 2006

De Fortaleza a Nova Olinda - Abr/06

Os diferentes Brasis se revelam ao longo dos quilômetros que rodamos. Nesse longo e atraente caminho, que nos leva rumo ao novo e ao incerto, nossas expectativas acabam sempre superadas. Tanto os projetos como as pessoas que tivemos a oportunidade de conhecer, nos proporcionaram momentos de muita alegria, enchendo-nos de energia e de luz. É um novo mundo se abrindo para nós, com ações de extrema beleza e resultados de encher os olhos, assim como pessoas incríveis que dão vida a esses projetos. Temos refletido bastante buscando compreender o que todas essas experiências têm em comum, o que gera toda essa magia.

Nessa nossa busca, encontramos diferentes respostas. Entretanto, há algumas que podemos tentar compartilhar. Cada vez mais, temos evidenciado que a gênese central de todo esse fascínio se encontra nas pessoas. Os personagens, sejam os gestores responsáveis pelos projetos, assim como todos os envolvidos (protagonistas, beneficiados, envolvidos), são a essência de toda a beleza que estamos conhecendo. Para nossa felicidade, somos invariavelmente recepcionados por pessoas que demonstram um sincero prazer em nos receber. Pessoas que, por sua hospitalidade e acolhimento, tornam nossas experiências especiais e suprem nossa carência afetiva.

Assim se compõe uma roda de ciranda: uns vêm, outros vão... Mas, sempre, promovendo uma troca de experiências, energia que a movimenta. Em nossa Ciranda, buscamos equilibrar fraquezas com gestos positivos que encontramos. As emoções, resultados de cada momento que vivemos, nos alimentam e nos dão força. O contato humano, sincero e intenso que estamos experimentando nos serve de aula para a vida. Aprendemos lições importantes, vividas e marcantes, de humildade, respeito, transparência e sinceridade (valores que acreditamos, cada vez mais, ser fundamentais para o relacionamento humano puro verdadeiro). São exemplos como o olhar ingênuo de uma criança, o carinho de uma mãe de família que divide sua mesa de jantar com dois estrangeiros, a dedicação e cuidado dos que nos recebem e tem interesse em conhecer nossa história e trocar conhecimentos, da vontade que todos têm em nos tocar, em sentir que somos iguais. Enquanto muitas vezes olhamos o outro, principalmente aqueles que vêm de fora, como uma ameaça, ou alguém que nos tira a tranqüilidade de alguma maneira, nós encontramos pessoas que recebem o outro com bons olhos e intenções. Na certeza de que marcamos a vida de muitos que estiveram em nossos caminhos e que todos mexeram com nossas vidas, seguimos aprendendo a viver e conviver.

Dizem que é sincronicidade e não coincidência. Preferimos acreditar que as tais conexões aqui estabelecidas não vieram por acaso, e sim porque estamos vibrando na mesma sintonia de algumas pessoas. Maninha, de Fortaleza, nos encontrou, não somente para apresentar o trabalho da Fundação Raimundo Fagner (do qual é diretora), mas também para passar-nos seus ensinamentos como pessoa. Com uma maneira suave e apaixonante de encarar a vida e estabelecer suas relações pessoais e profissionais, Maninha tem idéias e projetos que podem agregar muito à educação do nosso país. Trabalha, hoje, com essa fundação que promove o desenvolvimento humano através da educação, arte e cultura. Lá formam e transformam jovens principalmente com base na música.

 

Outro belo projeto que visitamos em Fortaleza é o Banco Palmas. Localizado em um bairro periférico, consiste em uma iniciativa para promover o desenvolvimento local e gerar oportunidades para a comunidade de Palmeira. Contando com uma moeda social, isto é, uma moeda própria chamada de Palma, busca fazer com que o dinheiro circule dentro do bairro, impulsionando a economia desta comunidade. Aceita por praticamente todos os estabelecimentos comerciais de Palmeira, impulsiona a economia através da mudança cultural dos moradores. Estes passam a comprar grande parte dos produtos originários da própria comunidade. É uma iniciativa extremamente interessante e criativa que vem conseguindo bons resultados.

 

Da grande cidade, diretamente ao sertão. Nova Olinda, no município da região do Cariri, sul do Ceará, com 12.000 habitantes é uma cidade com o perfil padrão de subdesenvolvimento do Nordeste, na qual crianças e jovens acabam sendo os mais prejudicados. Para quebrar com o ciclo vicioso de falta de renda, evasão escolar, miséria, entre outros problemas, surge um verdadeiro “patrimônio” cultural do Brasil que todos, algum dia, deveriam visitar. A Fundação Casa Grande Cariri atua para complementar a formação escolar através da memória recente do povo local, em especial o índio Kariri, assim como a pré-histórica da região. Sendo um verdadeiro caso de protagonismo juvenil, gera oportunidades para que crianças e jovens da cidade complementem a grade escolar com atividades separadas em 4 frentes de atuação: Memória, Artes, Comunicação e Turismo. O primeiro educa na área de museologia. Em Artes, a Fundação trabalha com um espaço para formação de platéias e capacitação das crianças e jovens nas áreas de música, teatro, dança e cinema. Na parte de Turismo, gera através da COOPAGRAN (Cooperativa de Pais e Amigos da Casa Grande), um laboratório de formação para o turismo, envolvendo e capacitando os familiares dos meninos da Casa Grande na área de hotelaria e pequenos negócios. Com a escola de comunicação, usado por eles como ferramenta de educação e formação da cidadania, fica marcante um dos pontos mais fortes das crianças e jovens da Fundação Casa Grande: a capacidade de se relacionar e se comunicar com as pessoas. Todo esse trabalho resulta em um aumento representativo da auto-estima deles, formando pessoas mais ativas e confiantes de seu potencial. A fundação abre novos horizontes e cria oportunidades para esses jovens que, em situação normal, não teriam tanto aprendizado e opções para investir em seu futuro.

 

 

 

segunda-feira, abril 03, 2006

A Ciranda no Nordeste (6/mar a 31/mar)

Caros, desculpem a demora em dar notícias sobre nossas andanças. Desde nossa última conexão à “rede mundial” visitamos três projetos no Nordeste nos quais ficamos aproximadamente uma semana em cada.

O primeiro, APAEB, consiste em uma associação de pequenos agricultores no semi-árido Baiano. Criado há mais 25 anos, tinha como intuito transformar as oportunidades de renda e emprego numa região de escassos recursos naturais, mas com pessoas comprometidas com uma mudança. Alteraram uma equação de miséria, seca, baixa auto-estima da população, êxodo rural, analfabetismo, monocultura, alta concentração de propriedade de terra, em um modelo de desenvolvimento econômico-social sustentável, construído ao longo desse período à base de muito trabalho e criatividade. Tudo isso valorizando o que há de mais abundante na região: o sisal (planta típica de regiões desérticas), a caprinocultura (carne de bode e o leite e derivados da cabra), e a vontade do produtor rural em melhorar suas condições de vida. A APAEB é um exemplo de toda a transformação que pode ser conquistada e construída através da organização e mobilização de um grupo, mesmo com condições adversas capazes de intimidar e sugar as esperanças de muitos, menos persistentes e corajosos. Podemos dizer que, além de uma incrível aula sobre o real desenvolvimento sustentável, aprendemos muito sobre o valor que possui o povo desse nosso vasto país.

 

O segundo, chamado Agência Mandalla e sediado em João Pessoa - Paraíba, representa uma organização criada com o objetivo de disseminar uma tecnologia social alternativa para ajudar o trabalhador rural a produzir seu próprio alimento. Além de melhorar a qualidade na base alimentar, abre espaço para incremento na renda do agricultor pela venda do excedente produtivo. Sendo um estágio seguinte à consolidação da subsistência, a atividade comercial propõe o abastecimento das proximidades, tendo como eixo central a prática do comércio justo, com a eliminação do atravessador. O produtor, adotando o modelo Mandalla de produção ainda garante um equilíbrio ambiental e utiliza de maneira eficiente os próprios resíduos obtidos dentro da Mandalla, tornando-a praticamente auto-sustentável. Willy Pessoa, o empreendedor e criador dessa tecnologia, estudou durante 30 anos, para então, criar essa alternativa. Passando por diversas cidades do país, Willy, muito curioso, perguntava para imigrantes o motivo de sua mudança. Ele buscava encontrar o motivador que levava – e ainda leva – muitas pessoas a saírem de suas cidades natais em destino a grandes cidades. A resposta, na maioria das vezes, era a mesma: arrumar um emprego, ganhar dinheiro e poder dar de comer a sua família. Willy então identificou que boa parte do problema que motiva as pessoas a saírem da zona rural para as grandes cidades era a falta de acesso a alimentos. Provou-nos, com toda sua metodologia e tecnologia de baixo custo, que ninguém dentro do Brasil pode passar fome. Assim como, através de diversos relatos e experiências que conosco compartilhou, nos mostrou que essa fome perpetua por falta de vontade política.

 

O terceiro, situado no litoral leste do Ceará, é o Amigos da Prainha do Canto Verde. Essa associação surgiu do interesse de organizar e fortalecer o pescador artesanal, que antes recebia uma ninharia pelos peixes pescados, resultado da atuação de atravessadores. Estes mantinham o preço artificialmente baixo, absorviam a maior fatia dos lucros dessa atividade e, consequentemente, influenciavam diretamente para a condição de miséria em que viviam os pescadores dessa comunidade. Com a associação toda essa situação se transforma, fazendo com que o pescador passe a receber um valor justo por sua atividade. No entanto, a associação não se restringe apenas a essa ação. Um dos principais trabalhos é o de combate à pesca predatória da lagosta, considerada por muitos a pesca mais importante do Brasil. Tendo um valor muito mais atrativo, acaba sendo o centro das atenções de empresários do ramo, que utilizando métodos ilícitos e predatórios, colocam em ameaça a espécie e prejudicam a pesca artesanal, atividade econômica responsável pela sobrevivência de muitas famílias em comunidades costeiras do Brasil, como é o caso da Praia do Canto Verde. Dessa maneira, a associação busca chamar a atenção de autoridades responsáveis para uma melhor regulamentação e fiscalização dessa atividade e elaboração políticas públicas que adotem a preservação do meio ambiente como prioridade. Ao longo do tempo, também, acabou construindo um modelo de turismo comunitário com objetivo de resistir ao turismo de massa e as pressões das grandes cadeias hoteleiras que tentam se instalar nas proximidades. Optaram por absorver o turismo de forma inteligente, promovendo o desenvolvimento local, com venda de produtos turísticos, instalação de pequenas pousadas, restaurantes e valorização do artesanato (atividade que ocupa boa parte da população feminina). Nesse tipo de turismo, a comunidade precisa se inserir na cadeia produtiva e ser protagonista do desenvolvimento, deixando boa parte da totalidade da renda do turismo na própria comunidade.

 

Todos os projetos nos trouxeram intensa reflexão e um enorme aprendizado. Conviver uma semana em uma comunidade de pescadores é uma experiência muito diferente da nossa realidade. Impressiona a coragem que têm ao passar três dias dentro de uma jangada em alto mar, para quando voltar a terra, ganhar R$ 15,00. Assim como toda a lealdade, cuidado e solidariedade presentes entre todos na comunidade, que acabam por compor uma grande família, na qual as relações são humanizadas e pessoais. Criam-se laços de comunicação entre visitantes e visitados, com interação e respeito mútuo, que tocam nossos corações e deixam saudade no momento da partida. Na Paraíba, um dos estados mais pobres do país, nos deparamos com uma alternativa altamente viável e de baixo custo para questão da fome. Vimos com nossos próprios olhos que, mesmo no Sertão, há alternativas baratas para o desenvolvimento local sustentável. No semi-árido da Bahia, a APAEB engloba tudo o que podemos imaginar e já lemos sobre desenvolvimento sustentável, em uma experiência integrada: geração de renda, educação, respeito ao meio ambiente e a cultura local, valorização das tradições e histórias locais, acesso a crédito, envolvimento do poder publico (ainda pouco) e privado, entre outros.

Mais uma vez, sentimos o desejo de mencionar a importância desses empreendedores, lideres integradores e seres humanos incríveis, que vêm nos surpreendendo a cada encontro. E, através de nossas experiências de convívio, acabamos por identificar algumas características comuns entre eles que, porém, gostaríamos de colocar como algo que fugisse dos adjetivos tradicionais utilizados para classificá-los. Encontramos nessas pessoas “uma certa mania de ter fé na vida”, que os mantém firmes e fortes em sua perseverante empreitada, assim como a “arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”. Assim, imaginamos que, por isso, essas pessoas são o que são: um exemplo de inspiração e orgulho para o nosso povo.

segunda-feira, março 13, 2006

Ressaca de Carnaval (03/03 a 06/03)

Fruto do acaso, acabamos decidindo por esticar nossa rota até Salvador antes de entrar no Semi-Árido do Sertão Baiano. Foi a melhor opção, em nossa opinião, para aproveitar o final de semana com uma atividade turística após uma rica estada na Chapada Diamantina. Pudemos conhecer um pouco da linda capita baiana, aproveitando toda a calma pós-carnaval, a receptividade do povo, e seu axé místico e mítico.

Nossa passagem por Salvador foi muito interessante. O que consideramos acaso acabou por se mostrar mais uma etapa de aprendizado e de experiências importantes de nossa viagem. Bagagem que levaremos conosco.

 

Toda a simpatia e hospitalidade dos soteropolitanos, e do baiano em geral, foram marcantes e imediatamente percebidas. Além de toda a experiência anterior na Chapada Diamantina, passamos por algumas situações que ilustram isso muito bem. Chegando em Salvador, por exemplo, tomamos um ônibus e, ao perceber que não conhecíamos nada da cidade, fomos atendidos de maneira muito educada e simpática por um passageiro que nos ajudou a encontrar nosso destino. Sentimos parte de uma grande e hospitaleira família que não se cansa desse calor humano e da necessidade de ajudar o próximo. Esse cuidado e atenção, muitas vezes, faz falta em uma cidade como São Paulo, onde as relações estão muitas vezes distantes e as pessoas parecem querer se esconder em seus ambientes físicos e psíquicos teoricamente seguros. Estamos acostumados, muito mal acostumados, com uma realidade carregada de interesses, incertezas e insegurança. O povo baiano nos proporcionou o gostinho de uma relação mais espontânea e verdadeira, temperada de alegria.

Salvador se mostrou ser mais um exemplo do grande paradoxo social brasileiro. “De um lado o carnaval e de outro a fome total”. Uma elite fechada que esbanja privilégios, e se preserva com todos seus direitos legais, mas ao mesmo tempo, ultrapassa a fronteira sensata de padrão de vida onde o luxo é um bem indispensável. Tivemos a oportunidade de freqüentar esses ambientes e levamos conosco a sensação de disparidade no país após convivermos com catadores de papelão que lutam por vender o quilo desse material por R$ 0,02. Esse hiato enorme que forma a estrutura sócio-econômica do nosso país gerou grande reflexão e um aprendizado para nossas vidas. Achamos que a para atingirmos uma realidade social mais justa no Brasil é fundamental a consciência e participação direta daqueles que detêm muito, contribuindo com uma melhor distribuição de renda, gerando oportunidades, e sempre tratando com respeito as diferentes e invisíveis castas da nossa sociedade.

Em Salvador, presenciamos alguns momentos de desabafo de soteropolitanos. Percebemos a necessidade do baiano de mostrar ao resto do país sua capacidade intelectual, sua inteligência e desvincular ou eliminar do senso comum uma imagem de lentidão e incapacidade de se fazer as coisas. Nos indagaram com comentários como: “que bom que vocês querem conhecer e mostrar iniciativas positivas pelo Brasil. Assim, vocês podem mostrar que o baiano faz muita coisa boa!”. Quando elogiamos o sotaque do baiano por todo seu ritmo e entonação, recebemos comentários como: “Vocês paulistas estão brincando e zombando da gente”. Tudo isso acaba sendo fruto de uma realidade preconceituosa, forte no sudeste, mas também presente no nordeste, cheia de estereótipos generalizados, rótulos, que acabamos por alimentar diariamente em nossas gírias e ações do dia-dia. Esse preconceito acaba tão enraizado que passa muitas vezes batido pelas pessoas e se incorpora de tal maneira que muitos acabam levando como brincadeira. Longe de ser uma brincadeira é algo que prejudica toda a riqueza cultural e histórica do Brasil. Segrega as diferentes regiões e limita o conseqüente aprendizado que pode ser proporcionado pelas relações entre elas. Que bom seria se todos conhecêssemos e valorizássemos todos os aspectos positivos presentes em nosso país...

 

Conviver pra Crer

Na sala de formação de coordenadores pedagógicos em Morro do Chapéu, Bahia, após termos nos apresentado como os representantes Cirandeiros do Projeto Ciranda do Brasil e tentado explicar nosso objetivo com a viagem, uma das coordenadoras, ouvinte atenta, levanta a mão e nos indaga:

“Deixa eu ver se entendi! Vocês vem até aqui a procura do Ser e nós estamos a procura do Ter!”

Nossos queixos caíram, pois ela em 10 segundos decifrou a essência de nossa busca. E ela própria, num momento de reflexão, compartilhou com a turma que, muitas vezes, mesmo conscientes dessa riqueza que possuem de convivência humana, de proximidade, cuidado, atenção, acolhimento...não prestam tanta atenção. Percebem o valor de suas atitudes, seus credos e valores, quando alguém de fora chega tentando resgatar algo que, se não ficou perdido, ficou distante na sua realidade (nosso caso). Que bom que pudemos colaborar nesse momento de conhecimento mútuo.

Outra aula rápida e de igual importância aconteceu numa roda com jovens de 16 a 20 anos, na qual uma menina de Araçuaí nos contou a seguinte história:

- Quer saber, essa coisa de cidade grande é engraçada. Outro dia fui até o RJ visitar uns parentes meus, e minha tia perguntou: “Vocês tem Shopping Center e Zoológico em Araçuaí?”. Respondi que não, mas que temos lojas espalhadas pelas ruas e animais soltos pela cidade.

Aquilo já nos tocou profundamente. Mas, ela complementou com mais um caso:

- Em outra ocasião, agora num supermercado minha tia também me perguntou: “Dá Goiaba assim lá em Minas?”. Respondi que daquela maneira não. Mas que, no entanto, não precisamos de agrotóxicos para deixá-las bochechudas daquele tamanho. Que aqui no Vale elas são menores e muito saborosas.

Quem disse que a vida na grande cidade é melhor? Quem disse que o nosso modelo de vida é o que deve ser buscado por todos? Ela, depois de alguns dias de visita à sua tia no RJ, conseguiu atrair a atenção de todos quando explanou a verdadeira riqueza da sua atividade. Explicou sobre o resgate cultural do Vale do Jequitinhonha, e mostrou parte da linda (e de alta qualidade) produção de artesanato decorado com resíduos e colorido com uso de diferentes cores de terra encontrada na região. A vida, no sertão, e em áreas rurais, tem seu valor e sua beleza. Aqueles que procuram a felicidade na simplicidade das coisas... a encontram e na simplicidade das coisas, acham.rente de se relacionar, de se criar, e de Ser.. E nos ensinam como olhar para o mundo hoje e dar importância ao que é bonito e realmente importante.

 

Nos pegamos pensando sobre essa questão do Ter e do Ser. Ter, em nossa opinião, tem muitos possíveis significados. Nossa colega, imaginamos, se referia em algum nível, a todos eles. Ter mais acesso a saúde (serviços e remédios), a educação, a emprego, a transporte, a recursos... Ter alguns bens materiais que ajudariam na rotina, ter outras experiências fora da sua cidade para conhecimento e consciência da realidade do país, etc.

Ser, em nossa opinião, passa por diversos aspectos também. Mas, naquele momento, pensamos em alguns deles imediatamente. Ser um ser humano íntegro, que respeita a natureza, que sente a importância de se relacionar sem pré-conceitos com um colega ou vizinho, ser solidário, ser sincero, ser sensível, ser ético, se conhecer, deixar as emoções tomarem conta e definirem como escolhemos nossos caminhos.

Com essa reflexão, acabamos achando um lema para toda essa nossa experiência: “Com+Viver pra Crer”. Nossa convivência com a diversidade e com o novo, que não para de nos surpreender, nos habilita a Crer que pode haver uma maneira diferente de se relacionar, de se criar, e de Ser. A Crer que, por mais que as adversidades sejam tantas, a vontade de se realizar algo que se acredite é sempre mais forte.

Seguimos nossa busca!

Os verdadeiros diamantes da Chapada!! (20/02 a 02/03)

A Chapada Diamantina surpreende por sua beleza. É ainda mais linda e extraordinária pessoalmente do que nas fotos. E, como todos os locais que visitamos, tem seus problemas e pessoas atentas a eles.

Riquíssima por sua beleza natural, com cachoeiras, grutas, canyons, rios, rochas, a Chapada nos mostrou uma outra grande riqueza: as incríveis pessoas que tivemos o privilégio de conhecer.

 

A região nos mostrou uma fraqueza social enorme. Como curiosidade, nos foi dito que o leste da Bahia sobrevive pelo turismo; o oeste, pelos grandes produtores de soja; e o centro, acaba sem recursos para se desenvolver. Se é ou não verdade, estamos tentando descobrir. Contudo, esse corresponde a um depoimento não pouco comum na região. Para aqueles que desconhecem, a região da Chapada Diamantina, tem em suas áreas rurais um déficit educacional em recuperação, proteções e privilégios coronelistas, decisões políticas atendendo a interesses de poucos, descuido com orçamentos públicos, e um turismo – principal atividade econômica dos municípios que lá se encontram - que nos pareceu insustentável.

No entanto, nossa estada teve como foco a Educação. Nos municípios da Chapada as taxas de analfabetismo giram em torno de 75%. Além disso, para aqueles considerados alfabetizados, existe de maneira significativa o “analfabetismo funcional” – leitura sem a capacidade de compreensão e senso crítico. O Projeto Chapada, liderado pela incrível Cybele Amado, com sua sede no lindo povoado do Vale do Capão, surge com o intuito de interferir e modificar o sistema de ensino da região. Hoje, atuando em 28 municípios, oferece capacitações mensais para coordenadores pedagógicos que, por sua vez, levam uma perspectiva diferente de ensino para dentro da sala de aula. Um dos fatores mais importantes consiste no fato de contemplar a realidade dos alunos, dificuldades da região e necessidades presentes no cotidiano, buscando a adaptação do currículo escolar e garantindo o papel da escola de transformar em conhecimento todas as informações com que os alunos têm contato. O resultado final é o desenvolvimento de um senso crítico na leitura e a capacidade de gerar suas próprias opiniões e reflexões com responsabilidade. Representa, assim, uma nova filosofia de ensino que abrange aspectos mais humanos e menos mecanicistas que o modelo tradicional. Longe de querer dar somente um futuro possível ao jovem do campo, a lógica é dar as mesmas condições de conhecimento e acesso a literatura que as crianças no centro urbano. Dessa maneira, o jovem terá discernimento e no futuro poderá escolher o que é mais digno com base em seus valores.

Outro projeto chamado Grãos de Luz e Griô, coordenado pelos hoje amigos Márcio e Liliam, movimenta todo o município de Lençóis e arredores, trazendo a importância do resgate cultural da região através da tradição oral e pesquisando histórias que falam sobre a identidade local. Baseado na Educação Biocêntrica*, as atividades dentro do espaço do Grãos e na Zona Rural, são desenvolvidas através de dinâmicas e rodas que integram todas as pessoas da comunidade (criança, idoso, jovem...), e ressaltam a importância de se preservar a riqueza das tradições locais via cantigas, contos, poesias, e o repasse do saber dos mais velhos aos mais novos. A presença do “Velho Griô”, personagem resgatado da cultura africana, consiste em um dos veículos para esse conhecimento móvel. Adaptado para a cultura local, utiliza a essência do aprender e ensinar, uma troca constante com as pessoas das comunidades. Como conseqüência, resgatam via tradição oral, elementos culturais locais. Essas vivências, que sempre abordam questões em torno do significado da vida, são transformadoras para quem participa. Há um resgate da auto-estima das pessoas que se sentem participantes de grupos onde o respeito, o diálogo, a experiência de cada um, são os maiores ativos.

 

* A Educação Biocêntrica busca a reeducação afetiva da vida por meio do vínculo, o desenvolvimento da inteligência afetiva, aprendizagem reflexiva e vivencial. As dinâmicas de roda propiciam o fortalecimento das pessoas e aumentam a auto-estima. A vida consiste na referência para a construção do conhecimento através da relação consigo mesmo, com o outro e com o ambiente. A filosofia biocêntrica diz que para olhar a realidade é preciso estar em movimento, por dentro e por fora de si mesmo, sem se congelar em um valor, conceito ou método, mas sim se mantendo aquecido com a contínua recriação deles.

 

sábado, fevereiro 18, 2006

A Roda da Convivência (10/02)

Nossa estada no município de Araçuaí – localizado no Vale do Jequitinhonha, MG – foi uma passagem rápida, porém muito acolhedora e de muito aprendizado proporcionado pelo pessoal do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento – CPCD, projeto de Tião Rocha, principalmente por parte de Tó, Pama e Vânia.

 

Visitamos a “fabriqueta”, uma das frentes do projeto no qual trabalham jovens formados pelo próprio CPCD. Nela, esses jovens realizam diversas atividades artísticas relacionadas aos costumes locais, como artesanato, pintura, moda, etc. Além do resgate e valorização da cultura local, trabalho que tem um impacto importantíssimo da auto-estima, proporciona a capacitação desses jovens e a abertura de outras oportunidades para o futuro.

 

Aprendemos muito com o tipo de relacionamento e convivência praticado por esses jovens. Nos juntamos todos em uma Roda, instrumento sempre utilizado por eles para compartilhar idéias, conhecimento, problemas, soluções. Tudo de uma maneira participativa e inclusiva, promovendo um ambiente gostoso, no qual todos têm responsabilidades e direitos.

Além da “fabriqueta”, participamos de uma tarde de capacitação de coordenadores pedagógicos em outro braço do CPCD que é o “Ser Criança”. Os coordenadores são responsáveis pelo trabalho de despertar e desenvolver nas crianças, através de dinâmicas de grupo, um sentido integral da vida, passando pelo autoconhecimento e a importância da interação com a natureza desde cedo.

É muito bonito conhecer iniciativas como essa e, em especial, as pessoas que as constituem, voltadas ao desenvolvimento de seres humanos que tenham como base de valores, o respeito ao próximo e à diversidade, a cooperação como fator de convivência, a auto-estima e orgulho da cultura local, o desejo de fazer a diferença e mudar o mundo onde vivem.

Por ações como essas o Vale do Jequitinhonha, muitas vezes rotulado de “Vale da Pobreza”, mostra que tem muita riqueza pra mostrar, tanto na parte cultural quanto nos cidadãos que vem formando.

História de Riquezas (06/02 a 08/02)

Nos despedimos de BH, após uma ótima estada na casa dos queridos Luciano, Miriam e Pepê a quem deixamos nossos sinceros agradecimentos, tanto pela receptividade, como pelas conversar partilhadas.

Seguindo nosso rumo para o norte de Minas Gerais, fizemos uma parada estratégica em Diamantina. Nosso objetivo era quebrar o grande trecho que tínhamos pela frente e aproveitar para conhecer essa cidade cheia de história.

 

Foram muitos os pontos turísticos visitados, tendo entre eles: a Catedral Metropolitana (ou Igreja da Matriz), a Igreja São Francisco de Assis, a Praça Juscelino Kubitschek, a casa de Juscelino Kubitschek, a Igreja Nossa Senhora da Luz, o Instituto Casa da Glória, o Mercado Velho, a Igreja do Bonfim, a Igreja do Carmo, a Prefeitura da cidade, a Casa de Chica da Silva, a Rua da Quitanda, a Casa de Muxarabiê, o Beco do Motta e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

 

Pegamos um ônibus, que inclusive quebrou em seu trajeto, em sentido a Serro. Lá, além do contato com a arquitetura colonial, similar à de Diamantina, tivemos a oportunidade de conhecer o projeto CRIASER. Esse projeto atua no complemento ao colégio na formação de crianças e jovens carentes.

 

Outra visita que fizemos foi à Secretaria de Assistência Social do município e – quem diria – com o Prefeito da cidade em pessoa. Ambas as experiências foram muito valiosas, uma vez que foi nosso primeiro contato com o olhar do setor público em nossa Ciranda. O Prefeito, em especial, nos passou a impressão de um político responsável e envolvido com as necessidades da população, apresentando um pouco de seu trabalho e contanto sobre seu interesse em gerar maior responsabilidade e participação da população local no governo.

Exemplos como esses nos enchem de esperança e demonstra que uma nova geração de governantes pode estar surgindo, mais comprometida em desenvolver soluções tangíveis e de real impacto às demandas específicas e reais de cada região.

Respeito à Diversidade (03 e 04/02)

Após ter conhecido um pouco mais do trabalho de Celinha no CENARAB, no qual tivemos acesso a informações sobre iniciativas interessantes de valorização da cultura afro-brasileira e combate a intolerância religiosa no estado de Minas Gerais, fomos convidados a visitar dois terreiros de Candomblé.

 

Os terreiros de Candomblé representam o templo religioso desta religião, assim como a Igreja para o Catolicismo. No entanto, diferente de outras religiões, os terreiros ficam normalmente na própria casa do Pai ou Mãe de Santo, nível hierárquico mais alto dentro do Candomblé.

As cerimônias religiosas são extremamente interessantes e alegres, contando com o forte batido dos atabaques, instrumento sagrado no Candomblé. O Pai ou Mãe de Santo comandam todo o rito, puxando as canções, definindo a entidade sagrada a ser saudada, direcionando a dança. Os trajes, todos muito lindos e ricos em detalhes, são em sua grande maioria brancos e refletem toda vaidade presente no Candomblé.

 

Para nós, foi um contato inesquecível com uma cultura religiosa totalmente diferente, além da oportunidade de conhecer um pouco mais, sob a perspectiva de quem vive essa realidade, a respeito de todo o pré-conceito vinculado a essa religião. Tivemos uma aula sobre a importância da tolerância e do respeito e o quanto estes valores – que talvez devam ser considerados como requisitos de convivência – são importantes para todos nós.

Nos perguntamos, por que não podemos viver num modelo em que possamos aderir arbitrariamente a uma religião? E em cultivá-la sem ferir a liberdade de escolha de outras pessoas a outras religiões? Imaginamos que as instituições – sejam empresas, escolas, associações, etc. –, num sistema democrático e num Estado livre, também têm um papel importante nessa conscientização. Principalmente, quando se mostram abertas para respeitar a diversidade religiosa, adaptando suas regras e sendo flexíveis para incorporar tais diferenças, se necessário. Se todas as religiões pudessem mostrar suas características culturais e suas histórias, da maneira como realmente são, quem sabe desde cedo poderíamos escolher o que mais nos completa como seres humanos?

sábado, fevereiro 04, 2006

A beleza por trás do “lixo”

Como é duro ver o contraste e o paradoxo entre os menos favorecidos pelo nosso sistema e aqueles que gozam dos benefícios do progresso, que detém e retém os privilégios do nosso tempo. Mas, quem julga o que é realmente importante ter? Qual a importância da cultura nesses momentos em que fazemos escolhas? Nossos valores estão dados, ou foram construídos com base em nosso senso critico?

Hoje, como nos primeiros dias, começamos a analisar a existência de um fenômeno em nossa cultura que parece ter invertido os valores que devemos sustentar. Estivemos reunidos com um grupo de pessoas que vive com menos de um salário mínimo por mês e, ao mesmo tempo, convive com muito respeito e educação dentro de um galpão de coleta seletiva. Chegamos a pensar que o status de “catador de lixo” representa a mais baixa qualidade da hierarquia social de uma cidade urbana. Mas, depois dessa experiência, aprendemos a diferença entre a situação de um associado à ASMARE e um morador de rua.

 

Ouvimos palavras que muitas vezes não ouvimos em shopping centers, como “por favor” e “obrigado”. Na correria da nossa vida em uma grande cidade, acabamos esquecendo de alguns princípios básicos de convivência e, às vezes, nos inserimos num modelo que não necessariamente aprovamos. Por outro lado, experimentamos um ambiente de confiança entre os catadores de “lixo” que hoje, após muitos anos, conseguem ter a condição de “trabalhadores” e não são mais vistos como o próprio lixo pela sociedade.

 

É impressionante ver e viver à proximidade da desigualdade. Nos assusta pensar que estamos inseridos em um mundo onde poucos podem prosperar e muitos devem sofrer. Imaginamos que um mundo realmente sustentável precisa contar com a consciência de todos sobre o que se passa lá fora. “Enquanto as pessoas não forem a campo e não virem o mundo em que vivem, o conhecimento será vazio” disse Dona Geralda. Por nossa rápida experiência de uma semana, acreditamos que existe um véu que esconde a realidade das pessoas – algumas vezes colocado pela sociedade, algumas vezes pelo próprio indivíduo que prefere não enxergar por puro comodismo-, principalmente pelo que sabemos que é oferecido aos jovens dentro das faculdades. É fundamental conhecer o mundo em que se vive para, dessa maneira, buscar descobrir porque e como ele hoje está dessa maneira. Quem sabe dessa forma poderíamos elaborar propostas mais justas.

Por algum motivo, não estamos dando conta de prover recursos básicos a pessoas que exigem tão pouco para viver. Por algum motivo, não estamos dando acesso aos direitos básicos dos cidadãos a todos os cidadãos. Nos parece, como no caso do Candomblé que vimos hoje, que temos um Estado democrático de direito que não contempla e nem atinge algumas partes de nossa sociedade, como os negros e outras minorias.

E como gerar acesso a todas essas pessoas? Quem sabe teremos uma sugestão até o final da viagem? Por hora, especulamos! Gerar uma consciência na parte da população “teoricamente” mais educada? Temos disposição para abrir mão de excesso e conforto em prol de uma situação mais igualitária e justa? Será que o poder público tem boa vontade e experiência para interferir nessas questões? Uma coisa podemos afirmar: o avanço e desenvolvimento da ASMARE esteve nas mãos de um ser humano fantástico: uma ex-catadora de “lixo”, que tomava dois litros de pinga por dia para suportar a dor física e psicológica da dura rotina da rua. Dona Geralda, analfabeta, é carismática, vive para o outro, empreende idéias, negocia com empresários e governo, tem a sensibilidade para administrar um caldeirão de problemas e traumas de catadores diariamente, e acorda com a disposição invejável.

 

Esperamos continuar encontrando pessoas que nos iluminam o caminho pela simplicidade de ser e saber e que tenham a disposição em nos ensinar.

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar” Nelson Mandela

terça-feira, janeiro 31, 2006

Início: ASMARE - BH

Hoje foi nosso primeiro dia em campo, fato que por si só já representava um desafio para nós. O projeto visitado foi o ASMARE, uma associação de catadores de lixo de BH que trabalha com materiais recicláveis e reaproveitáveis. Quem nos recebeu foi a Dona Geralda, cabeça e coração da associação. De cara, gostamos demais dela. É uma mulher muito forte, de fibra, coragem, persistência e que há anos luta por tornar realidade seus sonhos. Hoje, ela proporciona uma vida mais digna para 250 catadores de lixo e seus familiares, marcando uma vida quase que toda de luta pelo próximo. Ela é uma mulher acostumada a dar para os outros, sacrificando sua própria vida. É realmente emocionante.

Percebemos que o trabalho dela e de todos os envolvidos é muito mais amplo do que imaginávamos. Eles conseguiram dois galpões enormes para separação de todo o lixo coletado e sua posterior venda (geração de renda para os catadores), viabilizou uma creche para os filhos dos catadores (depois de mais de 15 anos batalhando por isso), uma loja de produtos reciclados que tem artesanato, bijuteria, roupas etc, e uma fábrica de plástico reciclado... ela foi longe e sonha mais alto ainda. Já tem uma rede com outras pequenas organizações em outros municípios de MG, nos quais estão replicando seu trabalho.

Levantamos muita informação e há muito mais por vir. Amanhã vamos conhecer uma dessas pequenas associações onde estão fazendo o mesmo trabalho...